terça-feira, 23 de julho de 2013

ANÁLISE DA MÚSICA AMOR E SEXO – DE RITA LEE


 * Evanilde Miranda 
nildy_letras@hotmail.com

O título traz duplicidade de sentido. Primeiro, sugere um adição, uma soma de amor e sexo. Segundo, remete à distinção desses dois elementos.

Em “amor é um livro” a presença de uma implícita comparação, ou seja, uma ideia metaforizada do amor. O amor é comparado a um livro, ao literário, relacionado a mente, ao pensar. Para conhecer seu conteúdo é necessário lê-lo. Ler é compreender códigos. Só conhece o amor aquele que o vivenciou. Já o sexo, é posto em analogia ao esporte, não é voltado para a mente, mas para o corpo, para o ato físico. Sexo é escolha, pois se escolhe com quem ter relações sexuais, diferente do amor, que escolhe quem será objeto de nossos sentimentos. Como nem todos conseguem ter o par ideal, a sonhada “alma gemia”, aquele que consegue ser agraciado pelo amor desfruta de grande sorte.

Amor é pensamento, teorema. O que mais se faz quando se está amando é pensar na pessoa amada. Mas o pensar aqui não é apenas lembrar, sonhar, é também, o pensar como reflexão, prudência, cuidado. Quem ama cuida. É teorema, é teoria, é o complicado, logo, é aquilo que precisa ser demonstrado. Nem mesmo os poetas conseguem explicar de forma clara a complexidade do que é o amor. Quem ama não consegue explicar os sentimentos, por isso, faz questão de exteriorizar o sentimento. No sexo, o pensamento/reflexão atrapalha, só as fantasias ajudam.

Amor é novela, é romance, é sentimento, é conflito. O amor é para ser sentido.  O sexo, entretanto é comparado ao cinema. Cinema remete à sala, ao reservado, no sentido de íntimo, e também à arte (habilidade é o fazer). É para a satisfação, para o prazer. O cinema é momentâneo, mais curto que a novela, semelhante a ele é o sexo, que é executado em breves momentos. Já o amor, não é uma prática, uma ação, um fazer que só existe a cada momento em que é realizado, o amor é um sentimento duradouro, preservado por aquele que o detém.
Sexo é imaginação, é concentração, é fantasia, pois não se faz sexo pensando em um poste, se faz imaginando coisas que estimule e concretize sua prática. Já o amor, é prosa, é diálogo, bate-papo, conversa. O amor é percebido como o espontâneo, que acontece sem que tenhamos domínio ou escolha. Não nos programamos para amar, nem sabemos a quem vamos amar. Diferente é o sexo, análogo a poesia, é o encanto, é o fazer. Os parceiros são escolhidos pelo encanto, pela atração, pelo desejo do sexo, e para esse fim.

O amor nos torna patéticos. Quando amamos agimos feito bobos, somos romanticamente ridículos, pois o amor nos torna sensíveis, mais sentimentais. O sexo, no entanto, é semelhante a um local aberto, pois não busca amarras, nem vive sob regras. . Epilepsia é uma doença. A referência a epiléticos remete ao estado físico e mental no momento de prazer. Um ataque epilético provoca convulsões, descontrole, tira os sentidos, semelhante ao ápice do prazer sexual. Assim como a doença, somos vítimas não do amor, mas do sexo, que domina nossos sentidos. Para ele ficamos entregues de corpo e mente. Para o amor entrega-se “de corpo e alma”. 

O sentido de sexo e amor são misturados nesse verso, que sugerem uma ideia de soma, imprimindo a importância da harmonia desses dois elementos. Remetendo à expressão “fazer amor” com sentido de fazer sexo. Amor e paixão/atração assumem sentido muito próximos. Isto porque quando se ama, perde-se o controle da situação, igualmente, na paixão e no ato sexo, caracterizados pelo descontrole, seja das emoções, seja do físico no ápice do prazer.

O amor é cristão, é a lei de Deus, amar a todos como a si mesmo. O amor é redentor. Por meio dele o homem pecador se reaproxima do criador. Enquanto que o sexo é pagão, não se preocupa em redimir, ele é o que quebra regras, sempre buscando o proibido das fantasias, pois toda fantasia é proibida.  O sexo busca a satisfação total, é a vontade de tornar tudo possível. Nesse sentido, o amor pode atrapalhar o sexo, porém, o sexo não atrapalha o amor, visto que é um complemento.

O amor é latifúndio, é propriedade, é casa, no sentido de proteção também de limite, pois o amor tem suas regras. Quando duas pessoas se amam elas são uma da outra, se pertencem. Elas se sujeitam à não traição. Isto remete ao texto bíblico de Cantares de Salomão “Eu sou do meu amado e o meu amado é meu”. Assim, o amor remete à exclusividade, à fidelidade um ao outro para preservar o sentimento. É mais voltado para a alma, as emoções, o completar-se. Mas o sexo, é invasão, é um “entrar no outro”, é a posse, o domínio para o simples prazer físico. O sexo não busca sentimentalismo, mas satisfação. Assim, ele não idealiza, mas é realista.

Amor é divino, porque Deus é amor. De acordo com a crença cristã, Ele deu seu único filho para redimir a humanidade. Por meio desse ato, tornou-se a maior representação de amor na qual os homem podem se espelhar. O texto bíblico no livro de Coríntios remete a esse modelo de amor, quando diz que o amor tudo sofre, tudo crê, tudo suporta, tudo espera. O amor é, portanto, doação.

Contrariamente, o sexo é animal. Os animais não se relacionam por amor, eles têm necessidades sexuais, que são supridas a partir da acasalamento por instintos. Por amor, se sofre, mas ninguém sofre pelo prazer sexual. Amor não é sentimento, é ação. O sexo é associado aos instintos nesse sentido de que, no sexo não é o amor que reina, mas o desejo carnal, a vontade de satisfazer as necessidades físicas.

Amor é bossa nova, é música, é embalo, é ritmo. O amor é o que dá sentido à vida, o amor é o próprio sentido da vida. Já o sexo, é carnaval, é folia, diversão, é prazer físico. Mas o amor sem sexo é amizade. Um romance sem o contato mais íntimo é comparado com a amizade, pois pode se gostar de muitas pessoas, mas é o tipo de sentimento que diferenciará o que essa pessoa representa para alguém. O sexo sem amor é somente vontade, desejo físico. Desse forma, se percebe a necessidade de sexo e amor estarem presentes em uma relação, apesar de serem duas coisas totalmente diferentes.

Amor é um porque quando duas pessoas se amam elas procuram estar em harmonia, elo, ligação de corpo e alma. Sob essa ótica, esse um também se aplica na relação sexual, pois com amor ambos são “uma só carne”. O sexo, contudo, é dois, ninguém faz sexo sozinho, mesmo na masturbação é preciso pensar no outro para estimular os desejos. Sexo é antes porque é o desejo primeiro, é movido pela vontade, que acontece independente de sentimentos. O amor é depois, é pelo conhecer, pelo admirar, que ele se manifesta em virtude de coisas relativas aos próprios sentimentos.

O sexo vem dos outros, pois é o “entrar no outro”, é o “colocar dentro/penetração”, é a própria “invasão”. O ato em si não fica, é apenas uma ação daquele momento e pronto. O amor, porém, vem de dentro, do coração, da alma, é o sentimento, e fica. O amor é desprovido de brevidades, por isso quando se ama acredita-se que o amor é eterno.

Essa composição possui forte caráter literário, visto que é cheia de metáforas por meio de palavras que fazem parte do cotidiano, como cinema, esporte, etc, utilizadas para apresentar as diferenças existentes entre o amor e o sexo. Enquanto o sexo é apresentado como algo voltado para o físico, para o instinto, satisfação total, o amor está mostrado como aquele que se volta para a vida para o outro. É cuidado, sentimento da alma.

Desse modo, ao longo da composição é possível compreender que tanto amor quanto sexo são coisas boas, mas juntos são ainda melhores, pois é assim que estabelece um equilíbrio, um harmonia. Clarifica-se então, o duplo sentido do título. Tendo a ideia de distinção entre sexo e amor e também de soma, visto que o amor sem sexo é associado a amizade, e sexo sem amor, emblemático do animalesco, do instintivo, tendo em vista a ausência de sentimento.


MÚSICA - AMOR E SEXO
Amor é um livro
Sexo é esporte
Sexo é escolha
Amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela
Sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa
Sexo é poesia
O amor nos torna patéticos
Sexo é uma selva de epiléticos
Amor é cristão
Sexo é pagão
Amor é latifúndio
Sexo é invasão
Amor é divino
Sexo é animal
Amor é bossa nova
Sexo é carnaval
Amor é para sempre
Sexo também
Sexo é do bom…
Amor é do bem…
Amor sem sexo,
É amizade
Sexo sem amor,
É vontade
Amor é um
Sexo é dois
Sexo antes,
Amor depois
Sexo vem dos outros,
E vai embora
Amor vem de nós,
E demora
Amor é cristão
Sexo é pagão
Amor é latifúndio
Sexo é invasão
Amor é divino
Sexo é animal
Amor é bossa nova
Sexo é carnaval
Amor é isso,
Sexo é aquilo
E coisa e tal…
E tal e coisa…

Composição: Cilze Mariane Costa Honório, Rita Lee, Roberto de Carvalho e Arnaldo Jabor

* Evanilde Miranda - Acadêmica do curso de Letras pela UEMA
                                        Acadêmica do curso de Jornalismo pela UFMA

domingo, 9 de junho de 2013

Reunião para bolsistas


Reunião para os bolsista segunda (10), às 14h na UEMA.
Não esquecer de levar documentos e a declaração para realizar a inscrição no JOEX de São Luis.


Resumo de encontro do Curso de Extensão

Campus da Universidade Estadual do Maranhão

No último sábado (08), o grupo Literatu´s se reuniu no campus da Campus da Universidade Estadual do Maranhão- UEMA para mais um momento de troca de saberes.

O tema abordado foi o ponto de vista (enquadramento). O diretor do projeto, Dr. Gilberto Freire falou da importância de conhecermos os enquadramentos, pois este é uma forma de interação com o espectador.
"O olhar é dirigido e sempre tem o olhar extra câmera. A gente só ver aquilo que ele quer que a gente veja". Ele ainda acrescenta que quando a cena é montada direciona mais olhar do espectador porque mostra tudo, mas também foca em determinado plano.

O ponto de vista refere-se ao modo de posicionamento da câmera, onde e como estará no momento das gravações. Determinar o enquadramento significa refletir sobre qual área deve aparecer na cena e qual ponto indica a melhor forma para que a ação seja registrada.

Evanilde Miranda mencionando sobre uma cena do filme Incêndios, lembrou da relevância da câmera como um canal de interação com o espectador. "Em muitos momentos a câmera engana a quem assiste, sugere que vai para uma direção e se volta para outra, focando em outra coisa, como acontece na cena inicial do filme. A câmera mostra a biblioteca, direciona nosso olhar para um corredor, e rapidamente nos leva a outro lugar, focando no senhor e depois nos envelopes".

Marta Menezes falou do filme Sentidos do amor, do quanto a cena atinge aquele que assiste. Ao assistir as cenas de choro de tristeza, o espectador também sente a agonia que os atores representam na cena. Assim, há um diálogo entre a câmera e os espectadores.

Mahalla Aguiar e Dayane Pereira também deram suas contribuições fazendo referências a outros filmes como Os contos proibidos de Marquês de Sade.

A atividade proposta foi para que todos assistissem ao  filme Amor, para que posteriormente cada um fizesse sua análise sobre o mesmo.


domingo, 19 de maio de 2013

LITERATU'S REALIZA ANÁLISE FILMÍCA NA ESCOLA


Literatu's é um grupo de estudantes do curso de Letras da universidade Estadual do Maranhão, que realiza estudos e análises fílmicas. 





Sábado (18) bolsistas do Projeto Cinema, Leitura e Som realiza comunicações sobre a linguagem cinematográfica na escola. Promoção do estudo do cinema no Complexo Educacional Arco-íris, em Porto Franco - MA.



Mahalla Stephany e Evanilde Miranda (da esquerda para a direita) analisando a morte como um ritual de passagem no filme Abril Despedaçado, de Walter Salles.



Dayane Pereira apresentando o tempo no filme Abril Despedaçado, de Walter Salles.


Martha Menezes falando de ambientação no filme Abril Despedaçado, de Walter Salles.





quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

ANÁLISE COMPARATIVA DO VÍDEO DE DANIELLA CICARELLI FAZENDO SEXO NA PRAIA E DA EXIBIÇÃO DO SUPOSTO ESTUPRO NO BBB12: UMA REFLEXÃO SOBRE A ÉTICA NA MÍDI


Evanilde Miranda
Graduanda em Comunicação Social/Jornalismo – UFMA
Graduanda em Letras - UEMA

A internet é uma poderosa ferramenta de comunicação, que propicia diversas ações, desde pesquisas, estudos, divulgação de serviços e o simples entretenimento. Porém, esta também possibilita a prática ilícita, e muitos insistem em usá-la para esse mal, em crimes contra a honra, injúria, calúnia, difamação e violação da privacidade, com conteúdos impróprios que caracterizam constrangimentos para outros. São delicados e ainda difícil de serem controlados, em razão das façanhas de usuários, o que desencadeia conflitos em relação à ética, à lei, e à própria liberdade de imprensa. Isto promove o questionamento se seria realmente possível ética na internet.

Conforme o Dicionário Aurélio Buarque de Holanda, Ética é "o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto”.
A expressão “conduta suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal” sugere um certo relativismo, colocando o ponto de vista como o determinante para o que será ou não aceita como ação ética. Esta é também comumente associada ao conceito de moral.  
Alguns estudiosos apresentam esses dois termos como tendo sentidos distintos, de maneira que moral tem a ideia de conjunto de normas pertinentes à formação do indivíduo, e ética, um caráter teórico cujo objeto seria o juízo de valor das ações como boas ou más.  Desse modo, enquanto a primeira aduz à constância e norma (imperativo/obrigação), a segunda é episteme e questiona as finalidades e o consenso em relação aos fundamentos da existência. Portanto, ética está relacionada a princípios com certa universalidade e permanência, em divergência com a moral, que assume um aspecto temporário, por está mais ligada a costumes.
Etimologicamente, no grego a palavra éthos está relacionada a costumes, similar a mores (moral). A definição ou conceito de ética sob a ótica filosófica é bem divergente, pois as várias correntes filosóficas trazem abordagens díspares. Para Espinosa ética não tem forma normativa, não influencia nas regras de condutas dos indivíduos, assim, se mostra distinta e independente de moral. Já para Kant, ética tem o caráter normativo, possui deveres e obrigações, e é essa visão de ética que é muito forte nos princípios jornalísticos. O jornalista Eugênio Bucci afirma, que de modo geral, as correntes filosóficas necessitam de uma teoria como base que sustente a racionalidade, a liberdade e a responsabilidade do sujeito, tendo suas palavras e ações medidas e aceitas pelos demais. Nesse aspecto, percebe-se que embora ambas, moral e ética, sejam distintas, são necessariamente próximas ou dependentes uma da outra.
[...] “a ação só é ética se realizar a natureza racional, livre e responsável do agente e se o agente respeitar a racionalidade, liberdade e responsabilidade dos outros agentes, de sorte que a subjetividade ética é uma intersubjetividade”. A conduta ética é fruto da decisão do agente – é por ter racionalidade e liberdade, ou por ter o “livre-arbítrio”, como prega a tradição cristã, que ele é o senhor dos seus atos – mas essa decisão individual tem lugar na sociedade (BUCCI, 2000, p.17).
Assim, “o caráter do homem é o seu deus ou seu demônio”, quando o homem desfruta de sua autonomia, mas também está preso aos valores sociais que representam a heteronomia, a partir de julgamentos de ações boas ou más. Isto remete à ideia de ética abordada pelo professor, jornalista e escritor Muniz Sodré, que toda educação implica fundamentalmente uma ética, tendo em vista a organização, as finalidades e os objetos consensuais das ações, tanto individuais quanto coletivas.  E nesse aspecto se percebe também a moral, implícita no imperativo das normas.
A internet como um meio de propagação de informações dos mais diversos tipos e com variados tipos de usuários, não está isenta do cumprimento de regras de condutas impostas pela sociedade, e tal fato gera polêmicas quanto à liberdade de imprensa e de expressão. Todavia, é preciso lembrar que a liberdade não é absoluta, mas regulada. Ester Kosoviski menciona, em Ética na Comunidade, dois termos para tentar diferenciar o significado de liberdade: “freedom” e “liberty”. A primeira está ligada à liberdade individual, enquanto a segunda está para a pública, institucional e privada.
Partindo desse pressuposto, a liberdade de informar ou de expressar algo deve ser realizada sempre com respeito ao outro, de modo a evitar conflitos em relação ao direito à privacidade. Porquanto é bastante necessário que haja senso ético e sensibilidade, uma vez que a privacidade é um bem jurídico, tutelado tanto pela constituição quanto pelo código penal.
A liberdade de expressão é um direito reconhecido, desde 1776 na Declaração da Virginia, e tem como sustentação a liberdade de imprensa, tendo a liberdade como algo que nunca poderá ser cerceado. A Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, aprovada pelas Nações Unidas, dispõe no artigo XIX, que “Todo homem tem direito a liberdade, sem interferências, de ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independente de fronteiras”.
O sentido “liberty”, mencionado por Kosoviski, está expresso na liberdade de imprensa, no direito de informar, mas sempre com responsabilidade, respeitando o “freedom”, a liberdade do direito à privacidade. Pois conforme Bucci, “a liberdade de imprensa é um princípio inegociável, ele existe para beneficiar a sociedade democrática em sua dimensão civil e pública” (2000, p.12), por isso é extremamente necessário esse senso de responsabilidade social ao exercer a liberdade de imprensa.
Nossa constituição de 1988, dispõe no artigo 5º e inciso X: São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente da violação. Assim, a liberdade de expressão é subordinada à privacidade do outro, ao respeito e a responsabilidade social. Isto implica discernimento dos limites entre autonomia e heteronomia.
            A expansão das tecnologias resultou na disseminação da informática e multiplicou a utilização da internet, porquanto muitos fatores suscitam maior preocupação com a informação, como a facilidade no cruzamento de dados, que constroem perfis detalhados de praticamente qualquer pessoa, mesmo sem o consentimento dela.
Em razão dessas muitas transformações tecnológicas sentidas pela internet, o tratamento da informação gira em torno dos conflitos entre privacidade e imprensa, com isso, é necessário compreender como a rede é organizada, a fim de discutir de que modo a violação à privacidade se dá. A rapidez da propagação simultânea da informação a diversos países com leis diferentes, é preocupante por dificultar o controle dos conteúdos divulgados.  Nesse caso, a própria estrutura da rede, por ser muito aberta, é de modo paradoxal, positiva e também negativa.

Na internet o tratamento à privacidade dá-se de forma equivalente ao da imprensa no que diz respeito à revelação de fatos privados e ao uso de métodos ilícitos para coleta de informações. Assim, a violação à privacidade, na internet, se configura a partir da divulgação de “dados ou fatos que atentem contra a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem de uma pessoa. Tal divulgação poderá ser feita por um “site”, por correio eletrônico ou por arquivo disponível para cópia” (LINS, 2000, p.7).

Mas nem sempre os sites parecem compreender a gravidade desse ato ilícito e a necessidade de limites para a harmonia virtual e social, pois a informação é fortemente usada para fins particulares, com interesses comerciais, como é perceptível nos sites de fofocas, que se alimentam da intimidade das chamadas “celebridades”. Portanto, uma reflexão sobre a [in]existência da ética na internet é bastante pertinente.

A página da Uol do dia 20 de junho de 2012, com link intitulado: veja-famosos-que-foram-pegos-em-flagras-indiscretos, traz muitas fotos e vídeos de personalidades públicas flagradas em momentos constrangedores. Uma figura muito comum nesse ramo do entretenimento baseado na vida privada das pessoas, é o chamado paparazzo, que em geral, tem a função de conseguir imagens sensacionalistas em troca de dinheiro. É relevante ressaltar a dessemelhança entre essa figura e o jornalista. O paparazzo age como uma espécie de detetive e muitas vezes não mede esforços para conseguir o que quer. Já o jornalista, é subordinado a regras de condutas, e seu objetivo deve sempre se pautar na informação noticiosa e no interesse público.
De acordo com Clotilde Tavares, no texto “O primeiro paparazzo”, publicado na Tribuna do Norte em 27 de dezembro de 2006, o nome surgiu em Roma, em 1958, quando Tazio Secchiaroli, fotógrafo e sócio da agência Press Fotos, começou a fotografar os astros de Hollywood na Via Vineto, um point de festas. Suas fotos fora do convencional lhe renderam fama e seu estilo ficou conhecido como “foto d’assalto”. Em 1960, foi procurado pelo diretor de cinema Federico Fellini, que estava filmando “La Dolce Vita. O termo surge quando Fellini apelida Tazio de “paparazzo”, o sobrenome de um dos personagens do filme, que também era um fotografo indiscreto. Desse modo, é perceptível, desde o início, que o paparazzo assume funções, interesses e posturas dessemelhantes das do jornalista. O primeiro se atém ao entretenimento e com isso entra em constante conflito com a liberdade de expressão e o direito à privacidade. O segundo, age com senso ético, respeitando os limites da liberdade de informar, a fim de não violar a privacidade individual, visto que a ausência desses limites causa danos, muitas vezes, irreparáveis.
18 de setembro de 2006 – Cai na net o vídeo de Daniella Cicarelli fazendo sexo
Em 17 de setembro de 2006 o paparazzi Miguel Temprano filma e divulga no canal Dolce Vita, na rede Espanhola Telecinco, o vídeo de Daniella Cicarelli e o então namorado Renato Malzoni, em momentos íntimos na praia de Cádiz, na Espanha. No dia seguinte, o vídeo cai na net, ganhando proporção internacional, embora Daniella tenha tentado impedir que a exibição chegasse ao Brasil. Sentindo-se lesada moralmente, dois dias depois, ela e o namorado entram com uma ação na 23ª Vara Cível de São Paulo para impedir a divulgação das imagens não autorizadas. O desembargador Ênio Santarelli Zuliani, do Tribunal de Justiça de São Paulo, entendeu que a divulgação ofendeu direitos como honra, recato, privacidade e intimidade e concedeu liminar a favor da retirada das imagens, ainda no mês de setembro.
A reportagem do Jornal da Globo do dia 9 de janeiro de 2007, inicia com a frase “as travessuras amorosas de uma modelo brasileira e seu namorado, na Espanha, colocaram o Brasil na lista dos países que censuram a internet...”.  A Justiça paulista determinou que os provedores deveriam tirar do ar o portal de vídeos YouTube. A polêmica em torno do bloqueio temporário de um dos sites mais acessados, rendeu protestos, pois para muitos, o ato restringiu a liberdade de expressão, em virtude da censura de cerca de 5 milhões de usuários.
O desembargador Zeliani determinou que os sites colocassem filtros na solicitação de acesso ou na entrada de acesso no web site americano. Entretanto, o presidente da Associação Brasileira de Provedores, Antônio Tavares, afirmou que se o desembargador intentava apenas proibir a exibição do vídeo, ele não entendeu direito como funciona a internet, visto que era necessário o bloqueio do site e não do filtro. “...apenas num filminho de 2 minutos e pouco que está no contexto de numa máquina que tem gigabyte de informações, é absolutamente impossível. Ao bloquear o número de IP, você bloqueia todo o conteúdo que vem dessa máquina”. O especialista em Direito da Informática, Marco da Costa, considerou negativo o resultado da ação, e diz que o site não se restringe ao vídeo em questão, que o site é consagrado no mundo inteiro exatamente pela quantidade de imagens que veicula. Para ele, a consequência é “impedir que o brasileiro acesse informações importantes de outros países, inclusive de natureza cultural”.
A liminar desencadeou discussões sobre ofensa ao interesse público e impossibilidade de acesso à informações em razão de um único vídeo. O fato foi alvo de muita pressão por parte da mídia e de internautas. Se sentido pressionada depois de um protesto em frente à MTV, que exigia sua demissão, Cicarelli pede desculpas, publicamente, pelo bloqueio temporário do YouTube. Também emite um comunicado explicando que não foi a responsável pelo bloqueio.
O procedimento ético na tentativa de solucionar esse impasse foi regido por interesses, pois em se tratando de um anônimo nas mesmas circunstâncias o fato não geraria tamanha repercussão e não teria o poder de bloquear um site de renome. Onde se pode vislumbrar ética na história desse “crime delicado”?
Os usuários do site YouTube insistiram na postagem camuflada do vídeo. Os internautas que acessavam o “vídeo-romance” deixavam comentários desrespeitosos, com termos de baixo-calão, expressões obcenas e insultos à modelo. Um dos canais tem como autor da postagem, um garoto de 15 anos. Os internautas não foram éticos, assim como os donos dos canais, que não controlaram o tipo de comentário. Faltou ética também por parte de Cicarelli, que não zelou por sua própria privacidade em um local público. Como alguém pode esperar que respeitem sua privacidade quando ele próprio não o faz?
Bucci (2000) diz que quem transforma seus namoricos em notícia, não tem razão para exigir que seus flertes não sejam noticiados, porque sua vida privada deixou de ser apenas privada. Claro, que isto não exime o erro do paparazzo, mas o posicionamento das celebridades pode contribuir para a violação de sua privacidade.
E quanto ao paparazzo em questão, não restam dúvidas a respeito da falta de ética. Esse trabalho em si, já não evoca muito um caráter ético, por está extremamente ligado ao sensacionalismo. E quando o paparazzo se declara jornalista?
No site da Folha Uol, o paparazzo Miguel Temprado conta os detalhes do processo de filmagem do vídeo de Cicarelle. O namoro que durou 23 minutos, foi gravado a cerca de 110 metros e gerou o “vídeo-romance” de pouco mais de 4 minutos.


AUSÊNCIA DO EXERCÍCIO DE CIDADANIA: UMA CONSEQUÊNCIA DA FALTA DE IDENTIDADE HUMANA EM “CIDADÃO DE PAPELÃO”, EM O TEATRO MÁGICO

MIRANDA, Evanilde (CESI/UEMA)                                                                                                    

RESUMO: O objetivo da análise do clipe da música Cidadão de papelão, de O Teatro Mágico é refletir sobre a identidade humana. A ausência de proteção, garantida pela Constituição, unidas às dificuldades e preconceitos enfrentados é o que coloca o sujeito à margem da sociedade. O clipe retrata numa linguagem irônica, a falta de identidade humana, mesclando trocadilhos, jogos de palavras e metáforas. O cidadão de papelão é um homem que se torna produto do meio, quando não consegue entender o que vivencia, apenas se habitua, não reage contra as circunstâncias, atua como uma criatura sem convicção, uma vez que não possui o que prova sua existência, um papel. O clipe é a caricatura da criação do cidadão de papelão desconstruindo a ideia de exercício de cidadania. Esta proposição se baseia nos estudos de Stuart Hall, sobretudo no que se refere à identidade do homem contemporâneo e pós-moderno.
Palavras-chave: Teatro Mágico. Videoclipe. Identidade.

ABSTRACT: The goal of the analysis of the music video Citizen of cardboard, The Magic Theatre is a reflection on human identity. The absence of protection, guaranteed by the Constitution, together with the difficulties and prejudices faced is what puts the subject on the margins of society. The clip portrays an ironic language, lack of human identity, mixing puns, wordplay and metaphors. Cardboard Citizens is a man who becomes a product of environment, when you can not understand the experience that only gets used, it reacts against circumstances, acts as a creature without conviction, since they do not have the proof that his existence a paper. The clip is a cartoon creation of citizen cardboard deconstructing the idea of exercising citizenship. This proposition is based on studies of Stuart Hall, especially with regard to the identity of the contemporary and postmodern.
Keywords: Magic Theatre. Video clip. Identity.







INTRODUÇÃO

A partir de várias teorias citadas nesse trabalho, sob a ótica, à princípio, de Stuart Hall, expondo os três tipos de identidade humana, almejou-se constatar que o sujeito abordado no vídeo clipe não possui uma identidade humana. O presente artigo buscou nas teorias, explicações para a ausência de identidade do indivíduo retratado na música objeto de análise, “Cidadão de Papelão”, de O Teatro Mágico.
Inicialmente uma breve informação a respeito do grupo O Teatro Mágico e sua composição “Cidadão de Papelão”, imprimindo seu estilo a partir da presença de elementos literários, que, unidos às imagens do vídeo, contribuem para a análise da música.
Em seguida, as linhas de pesquisa embasadas em Silva, Berger, Bauman, Berman, Cícero, Proudhon e Demo, e suas contribuições sobre a construção\alteração da identidade humana, as consequências de sua não existência e sua influência na prática do exercício de cidadania. 
Na sequência da pesquisa, a partir dos estudos de Berger, foram abordadas as questões da institucionalização como definidora do que é ou não identidade, e a construção da identidade humana, que se estabelece somente pela internalização da construção da realidade. Silva ressalta a importância da autoidentidade e da necessidade de firmar a identidade no meio social para que o indivíduo não fique à margem da sociedade. O resultado dessa não afirmação é enfatizado por Demo, ao tecer críticas às políticas sociais que veem nos menos favorecidos, um alvo para práticas que não potencializam a dignidade humana.
E por último, as considerações finais da pesquisa apontando os problemas e possíveis soluções mediadoras de modo a promover a formação da consciência crítica, a autonomia política em detrimento da marginalização humana.




AUSÊNCIA DO EXERCÍCIO DE CIDADANIA: UMA CONSEQUÊNCIA DA FALTA DE IDENTIDADE HUMANA EM “CIDADÃO DE PAPELÃO”, EM O TEATRO MÁGICO
             
O Teatro Mágico é um grupo musical brasileiro, criado em 2003 por Fernando Anitelli, músico, compositor e ator. É um grupo independente, que não tem apoio de gravadoras ou campanhas midiáticas. Suas composições são marcadas pela criatividade na escolha de palavras que possibilitam a polissignificação, imprimindo um aspecto literário nas canções com críticas sutis e denuncias sociais. O grupo possui três discos: A entrada para Raros, Segundo Ato e Sociedade do Espetáculo. O último traz a música Cidadão de Papelão, objeto desse trabalho.
A falta de identidade humana e o não-exercício de cidadania
Na expressão “O cara que catava papelão pediu um pingado quente”, o termo “cara” poderia sugerir, a princípio, qualidades como esperto, gênio ou algo que o fizesse se destacar. No entanto, assume um significado contrário, pois o artigo “o” o generaliza, restringindo-o apenas no sentido de que é aquele que catava papelão.
O “pingado quente” é o tipo de café mais simples e mais barato, que consiste em uma porção de leite e um pingo de café. Isto sugere uma metaforização a esse “cara”. Aduz ao seu próprio valor ou o estado em que se encontra, com pouco dinheiro, pois o verbo “pediu”, embora seja usado para se referir ao ato de comprar, aqui soa, de fato, como um pedido e não uma compra. Isto porque mais adiante acrescenta-se “em maus lençóis, remetendo à ideia de que este se encontra numa situação complicada, uma vez que é isso que a expressão “em maus lençóis” quer dizer. Essa situação difícil, pode ser entendida como dificuldade financeira, confirmada quando o “cara” pede o tipo mais barato de café.
Ademais, as informações seguintes “nem voz, nem terno” reafirmam a ideia de ausência de recursos financeiros, pois além de ser uma pessoa sem voz, sem opinião, que não é ouvida, logo não interage de forma positiva com os demais, é sem terno. A palavra terno assume duplo sentido, tanto o de que ele não é um sujeito afetuoso, quanto o de substantivo, como um indivíduo sem status social, sem algo para ostentar, ou simplesmente desfrutar, logo, sem motivos para esbanjar afetuosidade, uma vez que está à margem de toda a rua.
De acordo com a concepção de Proudhon (2007:65), “todo aquele que não tiver renda nem salário, não tem o direito de exigir coisa alguma dos outros”. O dinheiro, nessa perspectiva, influi na interação humana e nos próprios direitos civis. Em consequência, o “cara” não é um ser social, visto que não dialoga com a sociedade, nem desfruta de seus direitos, pois para Cícero
os degraus da socialidade humana são múltiplos. [...] O vínculo mais restrito consiste na pertença à mesma cidade. Aí muitas coisas são comuns entre os cidadãos; as praças, os templos, as ruas, as leis, os direitos, os tribunais, o voto, os costumes, a amizade, o comércio e a relação de interesses compartilhados. (CÍCERO, 2008. p.78).
Esse cara, portanto, não é um cidadão, visto que não possui direitos, não comunga das mesmas coisas e nem compartilha interesses. Não é o que Stuart Hall chamaria de sujeito com identidade, cujo “O sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado [...] O centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa” (HALL, 2006, p.10,11). Portanto, essa indivíduo centrado não é percebido no “cara” em questão, pois na verdade o que é explícito é sua impossibilidade de ostentar algo diante da sociedade.
“À margem de toda rua, sem identificação”,
Rua é um ambiente externo que remete ao social, às pessoas e à interação em sociedade, porém, ele está à margem, distante, separado, “sem identificação”, sem documentos, isto é, invisível. Como “[...]a identidade é formada na “interação” entre o eu e a sociedade” (HALL, 2006, p.11), entende-se que esse ser em questão, não possui, de fato, uma identidade humana, pois a interação com o outro não existe.
A palavra identificação remete tanto aos documentos pessoais, quanto a características que especificam quem alguém é. Além de ele não possuir uma identidade diante da sociedade, não possui os documentos pessoais. O que enfatiza ainda mais a ausência do eu, da força de alguém de personalidade. Não é um sujeito sociólogo em diálogo com os mundos culturais, tendo a interação como a que “estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais” (HALL, 2006, p.12), é apenas um “cara” indefinido, sem nome, sem marca social.
A questão da falta de documentos pessoais configura um grave obstáculo para o exercício de cidadania, tendo em vista que sem este, não é possível identificar quem é alguém. O documento vale mais que a palavra, e caracteriza um requisito para o usufruto dos direitos fundamentais do cidadão, inclusive o de ser considerado cidadão. É possível não possuir uma identidade humana e ter documentação pessoal, todavia, não ter documentos impossibilita uma identidade pessoal, pois sem estes, o sujeito é apátrido, sem personalidade jurídica e sem dignidade humana, pois não existe socialmente. 
A construção social da realidade e da identidade humana
A expressão “Um homem de pedra, de pó, de pé no chão” traz vocábulos fortes que enfatizam informações sobre ele, apontado-o como um homem rústico. A pedra, aduz à dicotomia do caráter sujeição/subjetividade, retratada por Foucault, importante no processo de formação do sujeito. A pedra como obstáculo, remete à ausência da internalização da construção da realidade, caracterizando o não ser o que se espera, não seguir paradigmas, a ser o que atrapalha, logo, a razão para estar à margem.
Em consequência disso, ele é apenas algo e segundo (Souza apud Hirst, 1979, p.65)“ esse algo que ainda não é sujeito deve já ter as faculdades necessárias para realizar o reconhecimento que o constituirá como sujeito” (SOUZA, 2007.p.15). A identidade é, portanto,  origem de uma construção social, visto que é preciso sujeição ao que é imposto, para que o processo de identificação ocorra. Em razão de ser por meio das práticas (regras/normas) que os sujeitos são levados a se observarem, se reconhecendo ao estabelecer “de si para consigo uma certa relação que lhes permite descobrir , no desejo, a verdade do seu ser” (SOUZA,  2007, p.124) e é desse modo que a subjetividade aparece, possibilitando a formação da identidade humana.
O “pó” como o que incomoda mesmo tendo existência frágil, podendo ser eliminado a qualquer momento, se mostra como a fotografia desse ser que apenas sobrevive. De “pé no chão” revela gradativamente a situação desse homem, descalço, desprotegido, sem ninguém por ele. Remete também à ausência da proteção garantida pela Constituição, aos direitos que, por lei, todos têm. Entretanto, para o seu usufruto é necessário provar que é alguém, é preciso existir socialmente. Esse homem não tem identificação. Não tem voz, não tem ninguém. Não tem crédito, não é ninguém, nem interage de com o outro.
Quando se diz “Sem vocação, sem convicção” entende-se que esse homem não tem profissão, um meio fixo, estável para garantir seu sustento. Nem convicção, nem sonhos ou perspectivas de vida. Na expressão anterior, “de pé na cova”, seu destino já está determinado. Semelhante ao pó, que é eliminado porque incomoda, a sua morte é deliberada, pois depois de ser invisível, seu último estado é a cova, o fim, a inexistência de fato. Para Berger e Luckmann, a “[..] identidade é um fenômeno que deriva da dialética entre um indivíduo e a sociedade” (BERGER & LUCKMANN, 2007, p.230) e como esse homem está à margem dela, a morte física alude à situação de morte (não-existência) da identidade humana.
À margem de toda candura, remete ao estar distante da delicadeza, da polidez, da “civilização”, da modelagem que a sociedade impõe. Ingênuo, não conhece seus direitos, nem a possibilidade de lutar por eles. É alguém, sem educação sistematizada, sem ostentação, sem convicção, desprovido de tudo o que poderia atrair a atenção dos demais. Como “o indivíduo não nasce membro da sociedade” (BERGER & LUCKMANN,2007, p.173), é preciso induzi-lo à sociabilidade a fim de apreender a identidade subjetiva. O “homem de pedra” necessita passar pela socialização para tomar conhecimento de sua realidade subjetiva e deixar de ser um sujeito sem identidade humana.
O “papo”, conforme o dicionário Aurélio, é o local onde se guarda alimentos antes de serem eliminados. Emblematicamente, o cara que catava papelão é o que colhe aquilo que teria o lixo como destino final. Num trocadilho ao estado em que se encontra, catador é aquele que cata dor, em virtude de ele manter-se, dia-após-dia, numa situação difícil.
“Um sopapo” lembra bofetada, tabefe, atitude agressiva. Sugere a atitude que o sujeito sem identificação recebe de outros que se julgam superiores a ele, pois no vídeo, um homem calçando sapatos de marca chuta o papelão, e o papelão faz alusão a esse homem sem aparente importância. Está implícito uma forte crítica ao homem “polido”, “educado”, que age de modo contrário ao que se espera de alguém civilizado. Nesse aspecto, é dual o sentido de cidadão de “papelão”, sendo tanto aquele que está à margem, esquecido, quanto o socialmente aceito como cidadão. Enquanto o primeiro é um “papelão” no sentido de frágil e abandonado por não transmitir tanta importância, o segundo, está como acepção à vergonha, pela falta de empatia e respeito aos menos favorecidos.
A tríplice da miséria humana: Pobreza, trabalho e concorrência
“Cria a dor, cria e atura”, se levada em consideração apenas a sonoridade, entende-se criador, criatura, remetendo à criação, à figura divina do Criador como Pai que protege a criatura humana. Porém, a letra mostra mais do que dois substantivos, mostra ações (cria e atura) que constroem um paradoxo sobre a situação. Uma dor que é criada pela sociedade (que ostenta) e que a cria (criatura-produto desse meio) atura tal circunstância.
No vídeo, paralela à imagem de um cara solitário, há um homem diferente dele. “Roupa cara” é o enunciado da camisa desse homem que é ovacionado por outros que o rodeia. Na sequência, há um mendigo de mão estendida, enquanto as pessoas passam indiferentes. Assim, é perceptível a ideia de desigualdade social e a dependência da relação de dominação, visto que a sociedade também deve aturá-la para que haja a perpetuação da dicotomia dominador/dominado.
Nessa perspectiva, as “roupas passam a ser o emblema do velho e ilusório estilo de vida” (BERMAN, 2007, p.131), em que o poder que o capitalismo possibilita, exibe o status como determinante para a importância e aceitação social do indivíduo. A excessiva busca pelo bem-estar e aceitação social, funcionam como modificadores das culturas e, inevitavelmente, implica nas concepções e relações humanas, desarticulando identidades e também possibilitando outras novas.
 “O cara que catava papelão pediu um pingado quente, em maus lençóis, à sós”. A expressão é repetida, enfatizando seu estado de abandono: sem ninguém que o defenda. Em “a sós” é reafirmada a ausência de mais um tipo de sujeito, o sujeito sociólogo, segundo Hall (2006), produzido por meio de uma modelagem a partir do outro. O que implica dizer que o homem é um produto social, sendo impossível que o indivíduo solitariamente se desenvolva como homem.
Para Hall (2006) a interação social é fundamental para a construção da identidade humana do sujeito sociólogo, que não é autossuficiente e por isso necessita dessa troca de valores, símbolos e crenças. Berger e Luckmann, afirmam que “os homens em conjunto produzem um ambiente humano, com a totalidade de suas formações socio-culturais e psicológica” (BERGER & LUCKMANN, 2007, p.75).
O catador de papelão, entretanto, não possui uma identidade humana. Não é apresentada nenhuma característica que o enquadre numa categoria de identidade. Não se sabe se é negro ou branco. Não é trabalhador, nem estudante. Não aparece seu nome nem termos como “alguém”, “pessoa”. É apenas o “cara”, o “catador”. E finalmente, quando aparece o termo “homem” não é colocando-o na categoria de identidade de gênero percebendo o masculino como um arquétipo de pai de família, ou provedor, parece apenas informar que esse ser não é uma mulher. Assim, entende-se que ele é apresentado não como pessoa, pois para Berger e Luckmann, “ao dizer “pessoas”, supomos que os [...] indivíduos tenham personalidades formadas, coisa que evidentemente só poderia ter acontecido em um processo social” (BERGER & LUCKMANN, 2007, p.81). Porém, como um “ser humano solitário é um ser no nível animal”, uma vez que a humanização tem sentido sócio-cultural, ele não é um ser social, pois não passou por esse processo de internalização objetiva das instituições sociais.
O temo “sem farda” reafirma que ele não possui profissão, pois a farda é algo comum a estudantes e trabalhadores. Exclui, portanto, a possibilidade de esse catador ser o profissional gari. Ele é colocado como inferior ao próprio gari, que apesar de também não ser admirado pelo serviço que presta, tem um meio de garantir seu sustento e é lembrado por sua farda. O catador, na verdade, não se enquadra na categoria trabalhador, não obstante desempenhe uma atividade, ele é apenas um ser que cata para sobreviver.
Assim sendo, há uma desconstrução da ideia de trabalho como sendo o que dignifica o homem, pois na realidade não é qualquer trabalho que o dignifica, mas aquele que traz reconhecimento, status e ostentação. O trabalho, nesse aspecto, é sentido literalmente como castigo em consequência do pecado edênico, um sacrifício para se sobreviver, uma luta constante contra a miséria.
Essa visão negativa do trabalho é apreendida nas ideias do economista Thomas Robert Malthus, ainda em meados do século XVII:

Um homem que nasce num mundo já ocupado, se sua família não possui meios de alimentá-lo ou se a sociedade não tem necessidade de seu trabalho, esse homem, repito, não tem o menor direito de reclamar uma porção qualquer de alimento: está em demasia na terra. No grande banquete da natureza, não há lugar para ele. A natureza lhe ordena que se vá e ela mesma não tardará a colocar essa ordem em execução (PROUDHON, 2007, p.65)
Por conseguinte, o trabalho é mais que uma necessidade, é uma institucionalização, um requisito para o valorização do homem e para o direito de reivindicar alguma coisa. Conforme Bauman (2008), a infelicidade do homem, portanto, é culpa somente dele. E assim se estabelece a concorrência, uns buscando desenfreadamente a riqueza, enquanto outros, concomitante afundam na mais profunda miséria. A concorrência de status assume tal importância porque possibilita a aceitação e reconhecimento por parte da sociedade.
Estamos diante de uma sociedade que não quer mais ser pobre, que zomba de tudo aquilo que outrora lhe foi caro e sagrado, a liberdade, a religião e a glória, senão tiver riqueza; que para obtê-la, suporta todas as afrontas, se torna cúmplice de todas as fraquezas: e essa sede ardente de prazer, essa vontade irresistível de chegar ao luxo, sintoma de um novo período da civilização, é o mandamento supremo, em virtude do qual devemos trabalhar para a expulsão da miséria (PROUDHON, 2007, p.41).
Outrora, a máquina fora tanto o emblema de dominação da natureza, quanto da extensão de escravidão humana pelo trabalho. Agora a máquina é o próprio homem, submetendo-se ora à mais-valia, ora ao mínimo para a subsistência. Em oposição à sociedade que ostenta porque pode ostentar, existem aqueles que lutam para pelo menos parecer que ostentam. Mas há também um terceiro tipo: aqueles que não têm nada a ostentar, nem mesmo o sentir-se humano. O vídeo mostra “o cara”, acordando, juntando a cabeça ao corpo e seguindo, como que mecanicamente para mais um dia de labuta. O estar separado da cabeça sugere que ele não é dotado das capacidades de consciência, de razão e de ação. Não é autossuficiente, não possui convicções, nem sonhos. Assim não é um sujeito do Iluminismo.
A ausência do exercício de cidadania é uma consequência de falta de identidade humana
Na expressão “Sem papel, sem assinatura, se reciclando vai” há a ratificação da ideia de que o catador não possui uma educação sistematizada, não sabe ler, assinar, nem tem o papel. O “papel” pode ser entendido como os documentos que provam quem ele é. Também como a identidade humana, o ser alguém na vida, ter um papel social. De acordo com a Constituição todos são iguais e merecedores dos mesmos direitos, entretanto, para o seu usufruto, não basta existir, é necessário que o indivíduo prove quem ele é. Sem documentação a pessoa encontra-se lesada em seus direitos fundamentais ao nome, nacionalidade, personalidade jurídica e dignidade humana.  E desse modo, está impossibilitada de por em prática o exercício de cidadania e ter uma função social.
Para que o indivíduo adquira identidade é necessário que internalize as instituições para se tornar membro da sociedade e então, praticar o exercício de cidadania. Berger e Luckmann asseveram que ninguém nasce membro da sociedade, “somente depois de ter realizado este grau de interiorização é que o indivíduo se torna membro da sociedade” (BERGER & LUCKMANN, 2007, p.175). Em decorrência disso, surge a necessidade da afirmação da identidade, estabelecendo uma conexão com relação de poder entre identidade e diferença. A relação de domínio é caracterizada pelo poder de definir o que é ou não identidade, tendo em vista que é a diferença que possibilita a existência da identidade.
Hall declara que as identidades “emergem no interior do jogo de modalidades específicas de poder e são, assim, mais o produto da marcação da diferença e da exclusão” (SILVA, 2007, p.109). Portanto, o catador, não é membro social, visto que não possui as experiências que o definiriam como sendo ser social. O fato de ser diferente da sociedade da qual está à margem, insinua o poder que ela tem de defini-lo como um ser sem identidade por ele se desviar das normas que o tornariam cidadão. Consequentemente, não há identidade sem o constrangimento das regras e a atenção escrupulosa da regulamentação das normas.
 As marcas da exclusão social são percebidas na ausência de nome, trabalho, voz, convicção e interação social, como empecilho para o processo de humanização e poder tornar-se um cidadão. Ademais, “sem assinatura”, denuncia o grave problema social, a falta de estudos, que gera outros tantos problemas, pois a falta de instrução formal, torna cegos aqueles que não a possuem, os tornando invisíveis para a sociedade.

[...]organizar o ensino é dar a cada cidadão a promessa de um emprego liberal e de um salário confortável; esses dois termos estão tão intimamente ligados como a circulação arterial e a venosa. Mas a teoria de Dunoyer implica também que o progresso é verdadeiro apenas para certa elite da humanidade e que para os nove décimos do gênero humano a barbárie é a condição perpétua (PROUDHON, 2007, p.137).

A realidade da educação como privilégio apenas para alguns faz com que muitos não sintam nem a necessidade de possuí-la. Essa falta de expectativas sobre a educação é reflexo da situação de miséria humana. Quanto mais difícil é a aquisição do saber, mais lógico se torna a ausência do desejo de conquistá-lo.

Os mais miseráveis selvagens e os menos esclarecidos dos homens são precisamente aqueles aos quais é mais difícil dar necessidades, aqueles a quem se inspira com mais dificuldade o desejo de sair de seu estado (PROUDHON, 2007.p. 142).

Isto evidencia que o homem precisa saber o que é bem-estar para sentir a necessidade de possuí-lo. O cidadão de papelão é ingênuo, não conhece seus direitos, não sabe que existe a possibilidade de mudar sua realidade, por isso não tem esperança nem aspirações, apenas vai deixando a vida o levar. Assim, permanece “à margem de toda candura”.
Se valendo do estilo de O Teatro Mágico, que em suas composições, brinca com a arbitrariedade das palavras, pode-se perceber a candura como “alvo” em dois sentidos, como “branco” e como “mira\objetivo”. Distante da “civilização”, daquilo que a sociedade institucionaliza, sem estudos, profissão e desprovido do que poderia atrair a atenção dos demais, ele é apenas um cara, um sujeito apátrido, sem personalidade jurídica. Distante dessa “brancura”, dessa nitidez, torna-se a sujeira da sociedade, a parte feia que não deve está às claras, mas escondido, invisível. Consequentemente, não é o objetivo, a preocupação, o alvo de interesse dessa sociedade, sendo portanto, segregado dela e por ela.
O verso “Homem de pedra, de pó, de pé no chão”  traz vocábulos fortes que enfatizam informações sobre ele, apontado-o como frágil e ingênuo. A pedra, aduz ao não ser modelado pela sociedade. O chão indica uma desigualdade social, o estar à baixo, ser inferior. O “pó”, como o que incomoda, é a alegoria a esse homem que tem como certeza apenas a morte, pois o “chão”, lembra o termo “de pé na cova”, anunciada na primeira parte da música.
Como disse Proudhon (2007: 65) “A natureza lhe ordena que se vá e ela mesma não tardará a colocar essa ordem em execução”. Sucessivamente a situação do homem é apresentada deixando implícito seu último estado, como a eliminação de fato. Destarte, a ausência da identidade humana alude à própria morte física.
Em Não habita, se habitua”, o verbo habitar indica certa estabilidade, pois é sinônimo de morar, residir, ter um lugar. Mas essa estabilidade é vedada a esse homem, uma vez que ele não a possui, vai habituando-se apenas, sobrevivendo ou insistindo em existir. O reciclar, todavia, pode sugerir a possibilidade de ele adquirir identidade e dignidade humana se se permitir passar por um processo de mudança.
No clipe, há homens trajados de roupa social, de maleta na mão, lembrando múmias, sugerindo uma produção em série de homens que fazem parte da sociedade cujo “cara” está à margem.  Em outra imagem, dirigindo um carro, vê-se uma figura de penas na cabeça, lembrando o índio das tribos. As imagens lançam de modo sutil, críticas às concepções que a sociedade cria quando impõe paradigmas para que as pessoas sejam aceitas no meio social. A visão estereotipada do índio como um ser “ignorante e sem educação” é substituída por outra, de um índio “civilizado”, depois de passar por uma modelagem social. Assim, ele apreendeu a cultura do branco, e não deixou de lado sua identidade cultural, mas a ampliou.
O indígena, nesse aspecto, diferente do cidadão de papelão, é um sujeito sociólogo, pois “a identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o "interior" e o "exterior"— entre o mundo pessoal e o mundo público” (HALL, 2006, p.11). Somente por meio da conscientização é que as pessoas conseguem sair de um estado de degradação social e interagir socialmente de forma satisfatória. Nesse sentido, não só o relacionamento interpessoal, como também o intrapessoal, são fundamentais para o processo de transformação de mente e busca de identidade e dignidade humana.
“É este conhecimento apreendido no curso da socialização e que serve de mediação da interiorização pela consciência individual das estruturas objetivas do mundo social” (BERGER & LUCKMANN, 2007, p.94). É necessário, portanto, que o indivíduo conheça o universo simbólico e não esteja apenas inserido nele, pois sua capacidade de atribuições de significações excede o domínio de vida social.
Efeitos paliativos: perpetuação da falta de dignidade humana
É relevante reiterar que embora o indivíduo seja produto do meio, também pode transformar o meio em que vive. Todavia, isso acontece somente quando adquire conhecimento sobre sua real situação e muda sua mentalidade.

Psicanaliticamente, nós continuamos buscando a "identidade" e construindo biografias que tecem as diferentes partes de nossos eus divididos numa unidade porque procuramos recapturar esse prazer fantasiado da plenitude (HALL, 2006, p.39).

Não obstante muitas vezes as pessoas encontrem oportunidades de mudar, é impedido por forças maiores que o sufocam e não dão estrutura para que a mudança de fato ocorra. Mas a partir da ciência de seu estado, uma mudança primeiro interior ocorrerá e posteriormente será refletida na sociedade. Entretanto, Bauman não vê essa mudança de forma positiva, pois para ele:
[...] a identidade é uma pena perpétua de trabalhos forçados.[...] Uma vez posto em movimento ainda na tenra infância, a composição e o desmantelamento da identidade se torna uma atividade autopropulsora, e autoestimulante (BAUMAN, 2008, p.142).

Enquanto Hall considera a identidade uma celebração móvel, Bauman (2008) a percebida de forma negativa, por ser inacabada e implicar o constantemente iniciar do zero. Isto porque a sociedade passar a estimular essa renovação do indivíduo, sob o rótulo da busca da auto identificação.


Em oposição ao pensamento de Bauman, Hall tece suas ideias sobre a identidade afirmando que ela se torna uma "celebração móvel" “formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 2006, p.13). Uma vez que a identidade não é algo fixo, muda de acordo com a forma que o sujeito reage ao estado em que se encontra, podendo assumir, não mais uma, mas várias identidades diferentes em diferentes circunstâncias. Isto suscita a necessidade da autoidentidade, que está em conexão com a dúplice incluir/excluir, “se a identidade consegue se firmar é apenas por meio da repressão daquilo que ameaça” (BERGER & LUCKMANN, 2007, p.110).

O dia 3 de junho de 2012 foi o fim da vida de catador para 1,7 pessoas que se despediram do aterro de Gramacho, no Rio de Janeiro. A indenização de R$ 14.000,00 que receberam deveria ser o ponto de partida para que mudassem suas histórias e criassem expectativas de vida, porém a quantia pagou o teto e não garantiu o sustento de muitas famílias sem profissão. Nesse caso o dinheiro não foi a solução. Uma mentalidade diferente, educação sistematizada e qualificação profissional surtiriam mais efeito do que recurso em espécie, embora o secretário municipal de Conservação do RJ, Carlos Roberto Osório, tenha afirmado: "O aterro fecha com os catadores recebendo a justa compensação”.
A assistência social traz auxílios que imprimem a desigualdade social, perpetuando a situação de subordinação dos menos favorecidos, assim “predominando de modo tendencial cuidados por vezes camuflados de controle social dos desiguais” (DEMO, 1994, p.16).

Muitos até têm esperança de mudar sua realidade, mas a pobreza, a falta de profissionalização, somadas à falta de estudos, priva-os de verem suas histórias serem construídas de forma diferente. A pobreza em seu sentido mais amplo, não apenas carência material, mas a de espírito, pois o “que faz pobre é ser obrigado a passar fome, enquanto alguns comem bem à custa da fome da maioria” (DEMO, 1994, p.19). Na verdade, a pobreza é injustiça e má distribuição das vantagens sociais. As políticas curativas, que se prestam a auxílios paliativos são tendenciosas a criar mecanismos de controle social, uma vez que coloca a pobreza como uma sina, quando na realidade ela é causada e cultivada por atos de injustiça.
A função da política social deve ser emancipatória, possibilitando autonomia econômica, a autossustentação. Propiciando a autonomia política, cultivando a cidadania, para que em consequência possa emergir sujeitos de seu próprio destino, “aparecendo como condição de enfrentamento da desigualdade sua própria atuação organizada” (DEMO, 1994, p.25). Dessa forma, a assistência social não deve ser confundida com esmola ou piedade, nem tampouco caracterizar a fantasia de sair da miséria sob a dependência de ajudas que desmobilizam o potencia de cidadania do indivíduo.
São necessárias políticas participativas, em que “emerge a oportunidade iniludível de formação do sujeito social, consciente e organizado capaz de definir seu destino” (DEMO, 1994, p.37). As políticas devem ser, preventivas, em lugar de paliativas, não obstante sejam dispendiosas em razão de grandes investimentos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Mediante o tema abordado, percebe-se que é mister estimular o ingresso aos estudos e incitar a determinação para sua conclusão, apontando a importância da educação para  o desenvolvimento profissional, intelectual, e consequentemente, da  identidade humana.
A consequência disso é a conscientização, igualmente indispensável, visto que, somente por meio dela, as pessoas deixam de ser “marionetes”, “bonecos”, “cidadãos de papelão”, e, conhecendo seus direitos, praticam o exercício de cidadania, assumindo uma atitude de verdadeiros cidadãos conscientes e esclarecidos.
“Somente quem está no poder pretende pintar a história como não-conflituosa, dentro do estratagema milenar de desmobilizar os marginalizados” (DEMO, 1994, p.15). É a partir da formação da consciência crítica que se descobre que a pobreza é opressão, injustiça, e forma de manipulação oriundas do poder, sendo necessário o enfrentamento dessa situação para que de fato, exista o exercício pleno de cidadania. 
“Uma sociedade se faz de sujeitos capazes, não de objetos de cuidado” (DEMO, 1994, p.15). Isto ressalta o sentido de que o maior auxilio que as pessoas menos favorecidas podem receber é educação e profissionalização para que saiam da situação de subordinação e tenham autonomia tanto econômica, quanto política, a fim de serem capazes de construir suas próprias histórias como verdadeiros cidadãos.

REFERÊNCIAS BILIBLIOGRÁFICAS

SILVA, Tomaz Tadeu (Org.). HALL, Stuart. WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 7ª. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. DP&A Editora, 11ª edição, Rio de Janeiro, 2006.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo. Tradução: Jorge Zahar. Rio de Janeiro. Ed., 2008.

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Tradução: Carlos Felipe Moisés\Ana Maria L. Ioriatti. 2ª reimpressão. São Paulo:Companhia de Letras.ed. Schwarcz.2007.
           
PROUDHON, Pierre-Joseph. Sistemas das contradições econômicas ou Filosofia da miséria. Tradução: Antonio Geraldo da Silva. São Paulo, 2007, editora Escala.

BERGER, Peter L. LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: o tratado de sociologia do conhecimento. 27ª ed. Tradução de Floriano de Souza Fernandes. Petrópolis, Vozes.2007.

DEMO, Pedro. Política social, educação e cidadania. Campinas, SP; Papirus, 1994. (Coleção magistério: Formação e trabalho pedagógico).

CÍCERO, Marco. Túlio. Os Deveres. São Paulo, editora Escala, 2008.

Disponível em: http://www.oteatromagico.mus.br 24.10.12 às 01:27 h


Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Teatro_M%C3%A1gico 24.10.12 às 01:29